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sábado, 31 de março de 2012

Posso: o goleiro paranaense 100% mineiro!!!(Entrevista feita pelo Jornal Vale do Aço)

Lairto Martins

O goleiro é ídolo no Ipatinga, e foi titular durante a campanha vitoriosa de 2005/06
Ele afirma não saber como é visto pelas pessoas. Seu jeito carrancudo, bem sério (segundo ele) está atrelado ao seu ofício. Goleiro no Brasil sofre. Se não toma gol não merece destaque, faz apenas a obrigação, e quando falha. Coitado de um goleiro quando falha. Ele é velho de trave, e hoje encara as coisas de forma diferente. Sobre como o veem? De uma lado, o veem como parte do Lamegão, sempre debaixo das traves, no grande time do Ipatinga campeão mineiro de 2005. Do outro, é a esperança de um acesso a série A do Campeonato Mineiro por um time com tradição, mas que perdeu a força nos últimos anos. Rodrigo Posso é ídolo de Ipatinga e Social, e é o personagem da semana do Jornal Vale do Aço. Ele falou sobre o começo da carreira, a experiência de ir do céu ao inferno com o Ipatinga, sua passagem pelo Chipre e seu atual momento. Uma certeza: diretor de futebol jamais.

JVA - Você começou a carreira nas categorias de base do Cruzeiro, mas antes disto, teve alguma experiência com o futebol no Paraná? E como foi parar no Cruzeiro?

POSSO - Meu primeiro clube, categoria de base mesmo, foi o Cruzeiro. No Paraná eu jogava apenas futebol de salão, mas nunca cheguei a fazer testes. No futebol de campo eu jogava, mas era de brincadeira, no time do meu avô, time de campeonato amador. Com 15 anos vim para o Cruzeiro. Wantuil Rodrigues era treinador do juvenil do Cruzeiro na época, e ele tinha contato com um olheiro da minha região. Este cara iria mandar um goleiro para o Cruzeiro, para jogar o Juvenil. Só que, quando chegou a hora do garoto ir pra BH, ele desistiu. O olheiro foi procurar outro jogador, e ficou sabendo de mim. Encontrei com ele, e aceitei fazer o teste. Então vim para o Cruzeiro, para fazer o teste do juvenil, mesmo tendo idade de infantil. Passei no teste, mas acho que não era tanto pela idade, nem pelo futebol apresentado, mas pelo tamanho mesmo, sempre fui muito alto e forte. Então o Wantuil resolveu me aproveitar. E assim começou a minha trajetória.

JVA - Você sempre quis ser jogador de futebol?

POSSO - Não sabia fazer nada, mas também não tinha vontade de fazer outra coisa. Com 14 até tentei, arrumei um emprego na Expresso Maringá. Trabalhava em um guichê, vendendo passagem, mas eu faltava horário mais do que tudo. Eu gostava era de bola mesmo, de manhã tarde e noite. Deixava todos os meus compromissos, eu não fazia outra coisa a não ser pular atrás de uma bola. Meu pai bem que tentou insistir comigo para jogar no meio de campo, tinha um time de molecada lá e ele sempre me escalava no meio. Mas eu arrumava um jeito e ia pro gol.

JVA - Você é do Paraná, mas os principais momentos da sua carreira foram vividos aqui no Vale do Aço. Você considera a região a sua casa?

POSSO - Eu nasci no Paraná, em Moreira Sales, e com 15 anos vim para Belo Horizonte, em 91. Fiz a categoria de base no Cruzeiro, me profissionalizei e em 99 fui emprestado para o Ipatinga, minha primeira passagem aqui. A partir disto, passei todos os anos em Ipatinga, menos 2002, que não joguei, mas já morava aqui. Eu me casei aqui, meus filhos nasceram aqui. Não é questão de considerar. O Vale do Aço é a minha casa. Eu tenho 35, 20 de Minas e 15 de Paraná, então sou mais mineiro do que paranaense e resido em Ipatinga, adoro a região e sou grato por tudo o que conquistei aqui. Até tinha a possibilidade de jogar pelo Uberlândia em 2012, só que eu resolvi ficar. Estou estudando Educação Física no Unileste, meus filhos estão estudando aqui, minha esposa. Me sentiria bem se pudesse continuar aqui até parar de jogar, mas sou atleta, e não tem como prever o próximo time.

JVA - Desde 1999, você está dentro do futebol na região. E teve uma boa passagem com o Ipatinga, chegando a conquista do Mineiro, acesso a série A e semifinais da Copa do Brasil. Qual a importância deste time para você?

POSSO - Eu rodo o interior, e vira e mexe sou surpreendido pelo reconhecimento que o Ipatinga tem, fruto da campanha de 2005, 2006. A visibilidade foi grande, do time, da cidade e de todos os jogadores. Demorou 50 anos para um time do interior ser campeão Mineiro. O último era o Siderúrgica, na década de 50. A Caldense, em 2002 ganhou, mas em um campeonato mais fácil, sem a presença dos grandes. O feito foi do Ipatinga, que conseguiu ser campeão Mineiro contra Cruzeiro e Atlético. De 99 a 2007 joguei todos os anos no clube, menos 2002, mas a fase de 2005 a 2007, que culminou com o acesso a série A, foram três anos que alavancaram o Ipatinga para o cenário nacional e mundial. Tivemos a Copa do Brasil, com uma semifinal, fomos campeões e vice do Mineiro, subimos da série C do Brasileiro para a B e da B para a A de forma consecutiva, e isto dá orgulho, cria uma identificação maior.

JVA - Qual era o diferencial daquela equipe?

POSSO - O trabalho do Ney dispensa comentários. O que ele foi depois do Ipatinga mostra a força do trabalho dele. Excelente, tranquilo, passa confiança, mas o diferencial daquele time era a amizade. Uma identificação grande e um vínculo forte entre os jogadores. Quando o Ney assumiu ele trouxe vários jogadores do Cruzeiro, que já mantinha um vínculo de amizade e não teve nenhuma rejeição por parte do grupo que já estava aqui. Conhecíamos as famílias um do outro, conhecíamos os problemas, nos respeitávamos, e quando um não estava legal, fazíamos questão de ajudar. Se um errava, juntos ajudávamos a corrigir o erro dele, tamanho a amizade que existia no grupo.

JVA - Olhando os times do Ipatinga de 2005/2006 e o time de hoje: quais são as semelhanças?

POSSO - Por não estar mais lá dentro fica complicado fazer uma análise completa, detalhada. Mas o time está conseguindo resultados expressivos. Tem a semelhança de um começo do zero. O time caiu para a série C, conseguiu o acesso, foi campeão da Taça Minas, tá bem no Módulo II, se preparando para a segunda fase da Copa do Brasil e para a disputa da série B. Então parece estar engrenando. A gente vê de fora uma amizade grande entre eles. Acredito que o time está no caminho certo. Já trabalhei com o Ney da Matta por duas vezes. Ele é um excelente treinador que sempre realiza bons trabalhos. Passou pelo Crac e fez um excelente campeonato goiano, quase foi campeão. É um treinador promissor e neste momento está colhendo os frutos de ter insistido na carreira.

JVA - Como foi o convite para defender as cores do Saci? Rolou alguma hesitação por causa da rivalidade?

POSSO - Fiquei sim um pouco receoso em aceitar o convite. Eu tenho identificação com o Tigre, mas fiquei com medo de perder aquilo que havia conquistado, o respeito dos torcedores. Hoje fico feliz que isto não aconteceu. Mesmo fazendo meu trabalho aqui, o respeito lá continua. E eu abri um leque de respeito aqui também. A torcida confia em mim, me respeita. Fico feliz de ter acontecido assim. Fiquei receoso de perder, mas estou fazendo um bom trabalho aqui.

JVA - Você chegou a parar de jogar futebol e atuar como diretor de futebol. Depois você sentiu vontade de voltar a jogar futebol, aos 32 anos. Hoje, você acha que fez a decisão certa ou se arrepende?

POSSO - Foi um desafio na época. O Itair me deu opções, e eu escolhi o cargo de diretor, para ficar perto da família, e continuar ajudando a equipe. Queria tentar uma coisa nova, mas não imaginava que ia sentir tanta falta de jogar futebol como eu senti. Eu ainda tinha qualidade, ainda tinha condição técnica, ainda tinha saúde e ainda tinha idade. Eu estava psicologicamente abalado pelo rebaixamento do Brasileirão e pelo rebaixamento do Mineiro naquele ano. O baixo astral fez com que eu tomasse uma decisão precipitada. Depois ainda fui para o Chipre, voltei, parei de novo, precipitadamente outra vez, mas consegui retornar. Agora vou jogar até o último instante. Enquanto eu tiver condições de fazer bons jogos, se não tiver lesões, paralisações, eu quero aproveitar bem cada oportunidade.

JVA - O Chipe alcançou um destaque no futebol mundial com a campanha do Apoel na Champions League. Você jogou no Ermis Aradippou durante o ano de 2009. Como foi a experiência?

POSSO - Participei da temporada 2009/2010. Foi a minha única experiência fora do país, e foi muito boa. Não lembro quantos jogos cheguei a fazer lá, mas foi algo muito positivo. Lugar bom, com costumes diferentes, até mesmo um estilo de futebol diferente. Senti falta de ritmo de treinamento lá, que era escasso, mas serviu como experiência. Tivemos que vir embora devido à gravidez da minha esposa, mesmo sendo bom era longe de tudo e todos. Até tenho um convite para retornar a ilha na próxima temporada, mas não sei se vai se confirmar ou não. Na questão cultural era muito interessante. Agora que conhecem o futebol de lá graças ao Apoel. Assim o futebol começa a ser mais divulgado. Mas é um futebol que ainda engatinha.

Em relação ao ambiente e a cultura, é um lugar gostoso de viver. Ninguém se incomoda com você, tem liberdade, tranquilidade. Cada um cuida da sua vida. O costume alimentício é diferente, não acha feijão, arroz, mas dá para viver. A torcida é diferente também. As pessoas te respeitam ganhe ou perca. Costumam aplaudir até quando perde, respeitando o espetáculo. Foi bem proveitoso lá.

JVA - Faz projeção sobre quando irá parar?

POSSO - Eu não tenho mais prognostico nenhum. Vou até quando me suportarem. Eu sou muito ansioso, não sei se as pessoas me acham mala, mau humorado, eu sou um cara carrancudo, meio sério. Mas goleiro, de tanto apanhar, começa a ficar receoso com todos. Fica achando que todo mundo está falando que você é ‘frangueiro’, que todo mundo está questionando o gol que você toma, então eu sofro muito na vida por isto e pela ansiedade. Fico pensando, ‘daqui a um ano onde eu vou trabalhar, o que eu vou fazer quando acabar o campeonato’, então tenho trabalhado em cima disto. Vou disputar um campeonato de cada vez, quando acabar espero outro. Quando acabar um campeonato e não tiver mais nada para mim, ai sim eu vou parar. Tenho 35 anos e nunca tive uma lesão grave, sempre estive jogando, e fiquei quase um ano parado nestas duas vezes de diretor. Dá pra jogar, desde que não tenha lesão. Vamos jogar um campeonato de cada vez.


JVA - Pretende ser treinador, diretor de futebol não mais?

POSSO - Por ser goleiro tenho uma visão diferente do jogo, mas não é apenas isto. O cara para ser treinador tem que saber lidar com o grupo, ter liderança, fazer com que as pessoas o respeitem, mas é uma vontade, algo que eu já tracei. Não vou ser mais diretor, tá definido. Não é a minha área. Precisa sim de profissionais qualificados, pessoas dispostas, mas não é para mim. Eu acho que na parte técnica conheço mais e me dou melhor, principalmente na questão prática. Dentro do futebol tenho as opções como treinador e treinador de goleiro. Com o tempo, Deus vai me mostrar o que fazer.

JVA - Você viu o ciclo completo. Da formação de um time até o auge da disputa do principal campeonato nacional, até a queda e o rebaixamento para divisões inferiores. Com foi viver isto?

POSSO - O primeiro campeonato que o Ipatinga disputou na série A do Mineiro eu disputei. Tinha poucos torcedores, e ano a ano fui vendo a torcida aumentar. Em 2005 tinha uma maior torcida, o título mineiro trouxe uma identificação maior com a garotada, depois veio o acesso para a série B, depois o acesso para a série A, ai criaram o sócio torcedor, então eu participei de todo este crescimento, que era muito legal. Ver o Ipatinga surgindo como um grande time. Quando aconteceu o inverso foi muito triste. Quando caímos em 2008 para a 2ª do Mineiro foi algo inacreditável. Tínhamos um bom time, não dá para saber o que aconteceu. No Brasileiro tínhamos uma enorme desvantagem financeira em relação aos outros clubes. Aconteceu o rebaixamento, sempre com muita tristeza. Em 2009 como diretor subimos de novo para o Mineiro, em 2010 fomos vice, mas no rebaixamento da B para a C eu não estava. Quando você sobe é maravilhoso, é gostoso, mas quando cai é muito ruim. Uma tristeza pelos torcedores e pelo presidente, que é um cara audacioso, que luta sozinho pelo Ipatinga. Ver as coisas dando errado é sempre ruim.

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